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sábado, 4 de junho de 2011

CACOS DE UMA VIDA INÚTIL


Flávio Mello
Qual será a real diferença entre a bunda de uma mulher e o resto da vida, não por que quando eu caminho fico olhando para elas, nesse momento a vida se esvai no ato, e as mulheres se tornam porta-bundas, apenas isso, ele pensa, ignoto como é, ao descer do ônibus e caminhar pela praça em direção à Radial Leste, trajeto arbóreo e compassado de todo santo dia.
CACOS DE UMA VIDA INÚTIL
ou tanto faz
Chove muito...
O metrô lhe parece algo surreal, não compreende o dispositivo, nem tenta, para ele tanto faz, utiliza-o muito pouco, assim como os hospitais e os bancos, odeia ambos, como odeia fila e a espera nos bancos em corredores sujos, longínquos que cheiram a infecção. Pensa nisso enquanto acomoda o aparelho de MP3 no bolso de moedas da calça, Engraçado, esse bolso, será que alguém o usa, se pergunta, metafisicamente, tanto faz, continua seu caminho. Passa pelos mesmos transeuntes, talvez só os carros não sejam os mesmos, na banca de jornal as revistas de putaria em evidência, Será que esses caras só vendes esse lixo, as de fofoca também têm destaque, alguém na novela ficará pobre e será pego traindo a protagonista, Eu queria ser como o Zé Mayer, de presença, a mulherada deve ficar toda serelepe com o cara, é, ser Zé Mayer deve ser bacana, beijar a morena da novela, qual é mesmo o nome dela..., ah tanto faz.
Uma moça de capa segue o mesmo caminho, mais atrás, sem guarda-chuva, pensa em oferecer-lhe o seu, ou caminharem juntos, mas esses dias de serial killer por ai é foda, ela se assustaria, nem todo mundo é dado a gentileza nesse inferno em que vivemos. Ao entrar no corredor do metrô percebe que não havia fechado o guarda-chuva e um imbecil fica rindo dele, um riso apodrecido, pobre de pessoas ignorantes, daqueles que passam as noites em casa vendo Superpop ou Pânico na TV, ou pior, Gugu, Ele mudou de emissora, eu acho, tanto faz, idiota. Fecha o guarda-chuva e com o olhar diz ao cidadão, Vai tomar no cu.
Uma senhora lhe estende a mão, pede esmolas, não gosta do que vê, mas se acostumou, antes quando era mais sensível chorava ao ver mendigos, pedintes, cegos ou aleijados pelas ruas, se lembra de uma vez em que uma família procurava restos de carne em um caminhão que recolhe os ossos nos açougues, passou o resto do dia chorando, na época era digitador de uma empresa de válvulas em São Bernardo do Campo. Hoje não, só criança consegue arrancar dinheiro dele, ou seja, continua sensível e menos idiota.
Outra bunda passa por ele, muito linda, não pode dizer o mesmo do suporte dela, mas é a vida, a mulher que passou não pode ter tudo o que quer, uma bunda linda daquelas e ainda ser maravilhosamente linda, complicado. O MP3 muda de música, ele nem percebe, o fone de ouvido já é parte de seu corpo, a música é apenas estado de fuga, odeia ouvir as conversas das pessoas, todas medíocres e inacabadas. A vida poderia ser menos nociva, veja bem leitor, a persona em questão não é amarga, apenas não anda na melhor fase de sua vida, está no limite, esperando a gota d’água para transbordar ou rebentar o dique.
Pensa em uma moça que há muito não encontra, a vida não anda fácil para ele, quer um refugio, mas falta coragem, em sua vida mulheres se despregam do andor da pureza e mostram suas garras vermelhas e o odor de luxúria, mas ele tenta, tenta manter-se fiel ao casamento, que tanto faz para ele nessa altura.
A vida é mesmo um aquário onde nós os homens somos os polvos molengas e sem cor, as mulheres peixinhos coloridos, o tempo uma moreia, o mundo se prende nas paredes transparentes do existir e as complicações, as dores, os amores, a ração medíocre que recebemos de Deus. Bela merda de vida, pensa ele olhando o céu que não para de suar. Na verdade a vida é uma matemática, como ele é, sempre foi, terrível nessa área... sofre as consequências de não entender a tabuada.
22h 30

A MISSA


Regiane Coutinho

Num domingo pela manhã, estávamos tomando café quando notei que o Pedrinho ainda não tinha saído da cama, fui até o quarto pra apressá-lo, pois íamos à missa.
– Vamos meu filho, larga essa preguiça e levanta!
– Não papai, não gosto de missa prefiro dormir. Pois é, os filhos sempre carregam algo nosso.
– Acho que hoje você precisa ouvir uma história sobre seu pai.
– Adoro ouvir histórias papai, pode começar.
Todo domingo, quando o papai era garoto, era a mesma ladainha, cobria a cabeça quando ouvia o barulho do chinelo da vovó arrastando na cozinha para passar um café bem forte se fosse fraco já era motivo de briga, e se acontecesse isso era capaz do meu pai desistir de acompanhá-la.
Mamãe era tal como uma beata, era sagrado no domingo pela manhã ir a missa, mas eu não gostava  de fazer  parte desse momento, porque não ficar em casa dormindo até tarde? Ela insistia em me chamar:
– Zino, levanta você vai atrasar todo mundo.
Esse era meu apelido, um garoto pequeno, é... franzino, daí até no adjetivo encontraram um diminutivo e pegou.
Inventei febre, dor de barriga e nada adiantava, levantava me arrastando até a cozinha enquanto maquinava um plano observava meu pai mergulhando seu imenso bigode na caneca de café.
– Jesus, Maria e José o povo já está saindo vamos seus lerdos.
Como nosso bairro era muito pequeno saíamos como numa procissão, todos juntos os vizinhos se cumprimentando, as mulheres colocavam as fofocas em dia, era nesse momento que eu andava feito caranguejo.
Quando a mãe dava fé, já era tarde ela já estava na porta da igreja e eu na porta de casa.
Os anos foram passando enfim chegou minha juventude, mas a missa ainda não frequentava.
Até que conheci a Gerusa, ela era uma moça linda, seu sorriso dizia tudo que eu precisava saber, eu a conheci na missa, esperava por sua vó na porta da igreja, fiquei apaixonado. A partir desse dia assisti muitas missas e o dia mais marcante foi diante de um Padre no dia em que eu disse:
– Até que a morte nos separe.
– Papai que lindo! Então vamos logo, mudei de idéia e a mamãe não gosta de atrasos.

História de amor entre dois opostos


Maria de Fátima de Souza           
No final dos anos 80, a jovem Sophya conhece, por acaso, um rapaz galês. Apesar dos dez anos sem praticar o idioma inglês, ela decide fazer sua primeira viagem internacional, sem a ajuda de um especialista em viagens, para conhecer seu príncipe.
            Ao chegar ao País de Gales, era aterrorizante o sotaque dos nativos. Tinha a velocidade de uma metralhadora, ou seja, equivalente aos nordestinos conversando em dia de festa. Apesar da dificuldade com o idioma, a brasileira seduz até a calorosa família Jones e outros vizinhos locais.
            Philip nunca saiu do país de origem. Desde os dezoito anos que seus passeios não ultrapassam o entorno (no máximo 1 km) da residência. O jovem apaixonado tenta engravidar a namorada brasileira para obrigá-la a se mudar definitivamente para aquele país. O galês, branco como a neve, algumas vezes até sonhava que era pai de uma filha “mulatinha”, desafiando as leis da genética. Os sogros galeses também apóiam, com veemência, essa gravidez. Na segunda visita de Sophya àquele país, julgavam que seria para fixar residência no condado de Bridgend, berço da família.
            A brasileira, filha de mineiros de BH e desconfiada por natureza, achou que tinha “gato naquele balaio”. Assim, seus dois grandes amores do Brasil (sua mãe e seu amado cachorro Puppy) vencem a batalha do “coração dividido”.
            Philip, desesperado pela insegurança de Sophya e, por vingança, se casa com uma polaka. Desde então começa uma batalha “feroz” entre uma ex-futura nora e uma sogra (que compra as dores do filho) que nem falam o mesmo idioma. 
            Após oito anos, o galês ainda tenta recuperar o amor da jovem serelepe do passado que hoje vive no Brasil.

Amigos



     Meu pai já me dizia que um homem louco não sabe reconhecer a própria casa. Faz algum tempo que acordo sozinho neste apartamento vazio, lembrando a época de minha infância. Lá em Itaquaquecetuba quando criança ouvia meus pais me perguntando se eu havia feito amizade com alguém. Nada dizia. Nossa casa possuía um vasto quintal, portão de madeira sempre trancado com um cadeado enferrujado. Não havia laje, era luxo naquela época. Hoje penso que aquela casa era o meu melhor amigo.
     Era naquele lugar que eu estava habituado em assistir televisão com meus amigos. Tudo estava em preto e branco, mas a minha imaginação se assemelhara, naqueles momentos, em um eterno arco-íris.  Era sempre antes da escola. Víamos o He Man, Os Superamigos, o Thor e tantos outros heróis que estimulavam a nossa imaginação para qualquer aventura fora da realidade dos adultos. Só não gostava quando chegava à hora do almoço ou do lanche. Minha mãe nunca oferecia nada a eles. E a resposta que ela dava era sempre a mesma.  - Deixa de besteira moleque. Eles pouco se importavam nem sequer criticava o pão durismo de minha mãe; até porque eu também não frequentava a casa de nenhum deles. Estava sempre só no meu quarto ou na sala com a minha televisão.
     No meu quarto, depois que meus amigos iam embora, me deitava no catre e olhava o reboco das paredes; parecia o rosto enrugado de uma senhora de cem anos de idade. A cama era feita de lastros de couro, não tínhamos colchão. Eu não me importava. Fitava a parede e os pequenos buracos e desvios nela se tornavam rotas de fuga para algum lugar que hoje se perdeu em minha memória. Ria. Meus pais não gostavam – Tá besta, menino!
     Não tenho irmãos, a casa era pequena, o quintal grande, a imaginação maior ainda. Então chamava meus amigos sempre depois das aulas. Hoje já não me lembro da voz de nenhum deles; acredito que nem conversávamos direito. Eles ficavam esperando o ir e vir da escola; pena que eles estudavam em escolas diferentes. Na verdade, eu duvidava que até estudassem um dia. Quando batia o sinal do recreio, era uma festa, juntava meus colegas de escola e brincávamos de policia e ladrão ou rela e ajuda. Subíamos pelas velhas carteiras postas no pátio, pulávamos o muro que dava na quadra e a correria só acabava no momento que surgiam os professores.
     Éramos pobres. Penso que foi isso o motivo das primeiras brigas de meus pais. Tirando as desavenças que foram aumentando com os anos. Tudo era perfeito se comparado a hoje que estou só e sem família. O que mais tenho saudade dessa época eram as brincadeiras de polícia e ladrão. Outro dia, algumas crianças aqui da rua brincavam, não de policia e ladrão que já está ultrapassada, mas sim de polícia e traficante. Colocavam umas tábuas velhas que no inicio pensei ser um quartel general, mas era só a favela mesmo. Os policiais tentavam invadir a boca e os traficantes procuravam defender a cocaína que era um saco de farinha de trigo, provavelmente furtado da casa de um deles. O engraçado era que a polícia sempre perdia. Me deu uma vontade louca de entrar na brincadeira, mas meus vinte e cinco não me permitira mais tais excessos.
     Depois das aulas costumava relatar as brincadeiras e os ocorridos para meus amigos, já que eles não estudavam mesmo e estavam presente sempre quando eu os chamava. O que não era raro, pois antes do divórcio de meus pais, havia diversas brigas em casa, tudo ficava tão cinza que eu me sentia sozinho, até começar trazê-los a minha casa. Concentrava-me para isso, fechava os olhos, esquecia a embriaguez de meu pai e as reclamações de mãe e quando voltava à realidade, lá estavam. No início, pensei que meus pais se importariam ou com o horário ou quantidade de garotos que dormiam lá em casa. Nada. A nossa amizade, resumia em assistir aos desenhos.
     Minha mãe quando me pegava conversando com eles dizia.  - Ficou louco Juninho! Acho que ela nunca gostava de nossos papos. Até que um dia o vizinho da casa onde minha mãe trabalhava foi parar no hospital, após quebrar uma porta de vidro. Ele havia dito. Eu tenho a força! E tome soco na porta da sala. Só sei dizer que o menino não perdeu totalmente os movimentos da mão, porque aquela família tinha muito dinheiro. O tempo foi passando e nós começávamos assistir Cavaleiros do Zodíaco. Nas nossas brincadeiras eu era sempre o Pegasus. Mamãe se irritava com isso e me perguntava sobre as garotas, pois eu já era bem crescidinho para ver desenhos. Ela acreditava que eu tinha vergonha do lugar onde morávamos, era a casa mais humilde da rua e uma das mais pobres da cidade. Eu nem me importava. Mamãe trabalhava muito e queria outra vida.
     Mamãe vivia telefonando para meu pai, não sei direito a conversa; eu chegava próximo ao telefone; ela mudava a conversa e depois me passava o fone. Meu pai era pior ainda, sempre com voz de embriagado, repetindo sempre a mesma pergunta.  - Você tá bem? Hoje todos se foram, minha mãe morreu num acidente de trabalho, bateu a cabeça ao descer pela escada da casa onde trabalhava. Meu pai desapareceu logo em seguida. Às vezes, como hoje, me levanto e volto à mente naquela velha casa onde não havia nada e ao mesmo tempo tudo.
     Foi aqui nesse apartamento que mamãe me contou sobre um menino que havia ganhado da tia uma fantasia do superman. Gostava tanto do homem de aço que no aniversário em que ganhou a fantasia, correu, vestiu e voou da janela do décimo andar. Minha mãe não gostou quando perguntei se ele havia voado bastante. Não sei o motivo, mas fora com esta conversa que meus amigos resolveram me visitar menos. Começou no dia seguinte quando minha mãe me levou até aquela mulher, não me lembro o nome dela, mas todos a chamavam de Doutora. Ela me dizia tantas coisas diferentes e inteligentes que enfadaram meus amigos. Eles eram mais crianças do que eu.




O professor


Leandro Ramires Rodrigues

     Sexta-feira, já passa da meia noite. Não vai demorar muito. Poucas pessoas no mundo possui a paciência e a destreza necessária para que eu faço. A primeira vez foi uma libertação; os jornais noticiaram o fato, mas logo esqueceram, como toda violência nesta sociedade. Vejo o ônibus parando no ponto da D Pedro I, logo depois de cruzar a Capitão. Minha pesquisa estava correta, lá vem ele. Ligo o motor do carro.

     Hoje não trabalho. Minhas aulas vão até quinta-feira de manhã e isso me consome a alma. Lavei o carro, retirei a placa original e coloquei a falsa que eu havia comprado em um desmanche de carros roubados. Contato neste mundo é tudo. Moro sozinho em um apartamento velho no centro da cidade. Quando resolvi ser artista; entendi que deveria comprar um carro apropriado, somente para esse uso. Meu pai não dirige, então deixo o gol vermelho na garagem dele, em Camilópolis. Ainda hoje pela manhã meu pai me perguntou como eu fazia para lidar com tanta bagunça na sala de aula. A gente sempre cria um escape.

     Gosto de conversar com o velho porque ele não sabe nada. Havia me perguntado se eu me preocupava com a polícia que poderia me parar devido ao insulfilme que eu coloquei no carro. Nada disse. Quando o velho saiu para o boteco, aproveitei para lubrificar o trinta e oito cromado que eu tinha comprado na Ilha. Como eu disse, contato é tudo. Informação também. Neste meu serviço, é necessário muita pesquisa; por isso passei mais de um ano me informando a respeito daquele aluno, lugar onde mora, tipo de gosto, baladas que frequenta, facebook, orkut e por aí vai. Também mandei vários currículos para poder sair agora no meio do ano, daquele colégio particular. Tudo que consegui foi aumentar minha carga horária no Estado. Sai. Minha arte só pode ser executada duas vezes ao ano, no máximo. No geral demoro mais, eu fico irritado, mas fazer o quê? A arte não admite falhas.

     À tarde, resolvo tomar um banho bem quente. É inverno, preciso manter a alma limpa, penso nas férias daqui uma semana. Revejo todas as informações a respeito do aluno. Também tenho que contar com a sorte. No inicio da noite; passo com o carro no meu destino várias vezes, o revólver, deixei em casa. Se eu levar uma geral, não vão me prender por porte de arma ilegal. Ele está lá. No ponto, provavelmente vai para Figueiras encher a cara. O que de certa forma facilitará todo o trabalho. Deixo o carro em um estacionamento no centro e faço uma turnê pela Figueiras. De um orelhão telefono para o celular dele. Barulho. Conseguir esse número não foi fácil. Esse cara é um desses bostas de aluno que além de não fazer nada, fica na sala conversando e rindo alto. Certo dia me disse que ele pagava o meu salário, outro dia o diretor disse a mesma coisa; aguentei um pouco, ainda não tinha concluído minha pesquisa. A representação também é uma arte. Primeiro, a gente abre um orkut para adicionar os alunos, depois um facebook, até que a presa cai. Nesse meio, se o telefone não veio através do próprio aluno, sempre tem outro que passa.

      Nada respondi quando ele disse alô, estava identificando o som, o lugar que ele se encontrava. Tudo indica que é o Mezzanine. Adolescente do ensino médio adora esse lugar, principalmente os do terceiro ano. Coloco a toca da blusa, fico em um lugar discreto até que vejo o rapaz saindo, pelo jeito que anda está embriagado. Corro até o estacionamento e busco o meu carro. Se ele tivesse um carro ou os pais o buscassem, então seria muito difícil terminar meu trabalho; teria que esperar outra oportunidade. O cálculo nestas horas é importante.

     Chego primeiro. Se ele não parar em nenhum lugar, daqui alguns minutos, desce do ônibus.  Ele deve pegar o último. Só me faltava o infeliz voltar de taxi... Resolvo abrir a garrafa térmica com o chocolate quente que sempre trago quando resolvo trabalhar até mais tarde. É o ônibus. Lá vem ele. Ótimo, está sozinho! Ligo o motor para facilitar, coloco a garrafa do lado e visto as lufas. Aumento o volume do som, Carmina Burana, aprendi a gostar de música clássica escutando o Schizophrenia do Sepultura.

     Oi professor, O que faz aqui uma hora dessas, fala com um voz de bêbado. Cobrar a lição de casa. Puxo o trinta e oito e atiro no meio de sua testa. Retiro rapidamente o tênis do moleque, celular e carteira. Jogo tudo dentro do carro e vou embora, deixando o corpo jogado na calçada. Levou apenas um minuto. Estou melhorando, o outro havia levado sessenta e cinco segundos. Quando chegar em casa, vou quebrar o celular e queimar a carteira junto com o dinheiro e os documentos. Já o tênis posso guardar por uns dias antes de entregar a qualquer mendigo da Praça do Carmo. Penso que da próxima vez será uma aluna. Quem será? Eu sai da escola mas tenho certeza que na segunda-feira, os professores estarão chocados com a morte e, mesmo assim, alguns comentarão que foi uma benção. Olho do lado e me aborreço; esqueci a garrafa térmica aberta. O chocolate esfriou.
   

A Fraude

Sebastião Salgado

Edi Roque

- Olha Pisco, eu acho que não vai dar certo.

- Relaxa Atuko, eu já pensei em tudo. A gente vai lá no terreno, tira a foto e depois eu vendo pro jornal. Você alavanca sua carreira e, eu livro o meu pescoço da forca.

- Sei não, acho que mentir sobre algo assim é perigoso. Eu nem sou índia...

- Mas você é oriental, tem os traços... eu já imagino você agachadinha, os cabelos cobrindo o rosto. Ninguém vai perceber, e o seu filho não será identificado.

E foram para um terreno baldio nas vizinhanças fazer a foto. Até o porquinho de estimação de Atuko entrou na jogada.

Antes de se despedirem, combinaram de não mais se encontrarem.

Semanas depois, a foto virou sensação nos jornais e revistas. Pisco, o fotógrafo, alcançou o status que desejava.

A “índia”, enfim, nunca foi procurada pela mídia e, até hoje não se sabe o que levou Atuko ao suicídio.

domingo, 24 de abril de 2011

Janela


Leandro Ramires Rodrigues

Hoje penso que os dias também são dos outros. Fernando mora do outro lado da rua. A casa sempre está vazia, mas há muitas pessoas passando por aqueles quartos. Quando vim morar aqui do lado da Tabacaria; seu jeito esquisito de andar, vestido todo de preto, ainda mais com aquele chapéu, não ridículo somente para quem viveu um século antes, me chamaram atenção.
Alguns anos atrás, quando precisei de um correspondente comercial para os meus negócios em língua inglesa, acabei encontrando Fernando sentado em uma mesa no fundo de uma sala. Estava lendo um livro de poesia; acho que o poeta se chamava Alberto Caeiro, mas poderia ser Álvaro de Campos ou Ricardo Reis. Admito que na época sentira certo desassossego em não compreender o poeta. Não importa, ficamos amigos e conhecer Fernando foi quase como fazer amizade com uma multidão de pessoas. Ele me ofereceu um charuto cubano, comprado na mesma Tabacaria que eu era freguês. Ainda quando aquele lugar era aberto, antes da morte do Alves; certo dia sai de lá e como por instinto virei-me e olhei para cima, estava Fernando que da janela gritou “Adeus ó Esteves” Depois que eu acenara a ele.
Não há metafísica no adeus e após a morte do dono da tabacaria, aquela janela passou a abrir cada vez menos. Lembro-me que uma das últimas vezes em que estava aberta, lá permanecia, todo de preto com o mesmo chapéu, óculos redondos, atrás uma mesa simples com uma xícara de café e uma pasta onde não pude ver direito o título. A luz iluminava o quarto deixando uma tonalidade avermelhada àquela hora da manhã, imaginara.
Hoje não existe mais janela, o existir está na certeza de que tudo um dia morrerá. Mas, enquanto ainda não morreu a língua portuguesa pude descer as escadas e encontrar Fernando na frente do que era a Tabacaria – Realmente, só tem duas datas, a que nascemos e a que morremos. Desculpou-se da presa porque precisava trabalhar. Desculpou-se do humor porque o médico o havia proibido de beber. Desculpou-se da vida porque ninguém o havia entendido. Caminhou. Olhei a frente e a tabuleta onde era a tabacaria. Vende-se.

Ego


Leandro Ramires Rodrigues 

Caminhava e caminhava. Todo dia Andirá saia ao trabalho, ônibus cheio, trem lotado e continuava. Já fizera algum tempo que havia se perdido no devaneio. – Preciso ir embora logo. Imaginava-se no banho tão logo pudesse ouvir o sinal que marcava às cinco horas da tarde. A indústria, ele não mais sabia onde ficava. Nunca havia lhe passado na cabeça o rosto do dono. Era um vazio que só lhe mandava continuar. Tocou o sinal. Andirá se tivesse alguma coisa, guardaria no armário, mas naquele dia achou estranho em pensar ser pobre. Estava apenas com as roupas do corpo e alguns trocados na carteira.
Logo que começou a andar na rua; sentiu certo tremor acompanhado de uma incrível tremedeira – eu não bebo. Continuou descendo por aquela rua sem nome, aliás, imaginava que toda rua daria para algum lugar totalmente diferente e assim, fugiria daquele lugar. Não havia rotas alternativas e a rua dava para um muro branco e sem saída. No muro observava a paisagem de uma praia, surfistas crianças construindo seus castelos e muito sol. Andirá ficara ali parado e quando percebe estar atraindo olhares interrogativos ao seu redor, saiu. Na verdade, sentira medo de alguém chamar a polícia, mas isso tudo era uma besteira, imaginava a cena, mostrando o RG e afirmando o local onde trabalhava, era ali. Ali onde? Iria dizer o policial, ali é ali e só.

Andirá redobrou o passo, não queria que ninguém o parasse; sentiu-se estranho cada vez mais, pois não sabia onde estava o local de trabalho, o mesmo que ele havia deixado uma hora atrás. – Não tem importância. Sua mãe havia lhe ensinado a não confiar em ninguém. Evitar conversas com desconhecidos, por isso nunca conversava; houve um tempo que Andirá esquecera o som da própria voz. Então saiu gritando por entre as ruas, lembrando como deveria articular as palavras para continuar existindo. Só queria voltar para casa, sentiu um aberto no coração e lembrou a falecida mãe – Continue meu filho, nunca pare! Queria achar a casa onde tem um retrato da mãe, colocado sobre a estante e com a intenção de manter na memória o rosto materno. Andirá tremia ao imaginar que um dia passaria um fantasma e recolheria também os traços e a aparência da mãe. O fantasma existia sim, repetia consigo mesmo, o fantasma já levou a voz de minha mãe.

- Tudo isso é uma tremenda besteira! Ainda hoje levantei de uma cama quente e me vesti. Ônibus e trem cheios a mesma rotina do trabalho. Andirá alcança o ponto de ônibus sentindo que nunca havia estado naquele lugar. Caminhara muito antes de chegar ao muro e o muro só o vez voltar atrás, retroceder como tantos outros lugares. Precisava de um ponto. Era ali que tomaria o ônibus, naquele ponto, já que um ponto é sempre a partida para algum lugar e todos os lugares estão ligados entre si, pensara Andirá um dia ser de todos os lugares. Hoje estava tímido e por isso começara a imaginar que um ponto nem sempre é um ponto. Havia outro ponto de ônibus do outro lado da rua. Aquele o levaria para lugares opostos, como um dia outros o fizeram e mesmo assim continuou a existir. Também não queria voltar de trem, espaço que liga dois pontos opostos. Há muitas pessoas lá se empurrando na vida; Andirá quando era mais novo sentiu vontade de se jogar nos trilhos, abraçá-los, mas não fez porque percebeu que abraçar os trilhos seria o mesmo que estar acariciando as grades e seus braços não teriam força para romper esse cárcere. Ainda mais agora que ficara velho.

Parado observava o fluxo de pessoas entrando e descendo do ônibus; ninguém olhava para seu rosto, era um fantasma até notar que o mesmo acontecia com todos. Então sentiu vontade de rir, rir como nunca até arrebentar os pulmões e quando percebeu que de sua boca já saia os primeiros vestígios de uma boa risada. Ficou com medo, haveria de passar um guarda ou um alguém qualquer lhe dando uma bofetada no rosto e lhe dizendo na cara - Ficou louco, seu bosta! Merdinha do caralho que fica aí no meio atrapalhando a vida dos outros.

Os outros são sempre os outros e passara a vida se contendo para não prejudicar os outros. Agora queria saber quem era. Abre a carteira e busca por um RG, uma identificação qualquer, não havia nada além de uns poucos trocados, fruto do trabalho e um nome em um papel branco, Andirá. Colocou a carteira no bolso da calça e entrou no ônibus mais vazio. Estava cansado de lotação. Percebeu que o caminho era o oposto realizado no dia anterior, também não lembrava direito do dia anterior, só que havia trabalhado; produzido em uma máquina da qual ele deveria retornar amanhã e continuar assim até o dia de parar. Mas parar e ir para onde? –Hoje não vou conseguir voltar para casa, isso o aborrecia, já fazia alguns anos que não retornava para casa, salvo poucas exceções como ontem, antes de sair estava em casa. - Por que eu fui sair?

Desceu do ônibus, estava com sede e no primeiro bar que encontrou pediu uma coca cola. Foi atendido e ali ficou por mais um tempo. Sentiu fome, mas não queria gastar seu dinheiro honesto. Se abrigou em outro ponto de ônibus, talvez haja tempo de voltar atrás. Um carro para e um bando de moleques o agride. Andirá não entende o motivo de tantos chutes e socos, mas a dor que foi aumentando, agora diminui e por um momento pensou que aquelas pancadas fossem uma libertação maior. Fechou os olhos e esperou o golpe derradeiro, mas este não veio. Algum barulho lá do outro lado da estrada havia espantado os libertadores de sua sorte. A sura o deixara em péssimo estado; queria parar, mas não sabia como. Na calçada virou para o canto e dormiu pensando que amanhã precisava trabalhar. E lá no fundo ouviu o sussurro de sua mãe que dizia – Andirá você é meu filho, continue, continue...   

MEU SONHO




Era um belo dia de domingo, dia de folga o que é raro hoje em dia para um trabalhador brasileiro, encontrava-me em cima de uma estante ou escrivaninha como quiserem me chamar, as coisas mudam de nome a todo o momento.
Por vir lá da Idade Média alguns me acham chato ou ultrapassado e muitos não têm paciência comigo, talvez seja por esse bombardeio de informações através da internet, que me deixaram de lado.
Eu tenho um papel muito importante na história da sociedade, atravessei guerras e conflitos, mas continuo para o desenvolvimento humano, contribuindo como sempre fiz.
Tenho atravessado culturas querem me digitalizar, porém não sei até que ponto isso é bom, mas não deixo de pensar nessa possibilidade. Alguns me folheiam e interpretam de diferentes maneiras, isso é bom, pois recebo criticas e elogios – e dai, estou aqui pra isso mesmo.
Drummond, Manuel, Fernando, Euclides entre outros ícones me utilizaram com o intuito de outros me olharem, com outros olhos, ora com graça, ora com dúvida.
Não me deram folga domingo ou qualquer que seja o dia, me explorem ao máximo e me apresente aos seus filhos.

     

terça-feira, 5 de abril de 2011

A teoria dos Bráulios




Pertenço a um grupo de pessoas seletas, se bem que hoje já tenho caído fora, pois a alienação daquela gente para o sexo passou dos limites da compreensão humana. Ainda me lembro bem das nossas reuniões realizadas à noite de sábados. Os Bráulios, era assim que nos chamávamos. Cada um possuía um número herdado não no ato de entrada, mas de acordo com uma interpretação numerologia criada pela nossa irmandade. Começávamos sempre exaltando a beleza de nossa pátria:
- No Brasil, existe uma incrível variedade de mulheres, dizia o número Sete, encarregado dos discursos de abertura. – Começando com as mulatas que se destacaram como rosto de beleza da nação brasileira. Há ainda outras de origem italiana, alemã, holandesa se pensarmos na época que o Brasil, ideologicamente, resolvera se clarear. O que deixou a trilogia étnica um pouco mais tênue. O que não vem ao caso aqui. A verdade é que me cansei desses discursos, o irmão Sete, às vezes me parecia um cachorro lambão. Quando entrei para nossa confraria; apenas estava interessado em foder a irmã número Seis, a mesma que me fez o convite num bar de esquina. Meu amigo me avisou da loucura daquela mulher, mas Luana era gostosa mesmo... Depois, passei a chamá-la de Seis, como todo batizado! O nosso batismo era orgia mesmo; não descreverei isso aqui, a finalidade deste texto é documentar para as gerações posteriores a existência da confraria dos Bráulios, nome que todos conhecem, mas poucos realmente compreenderam a beleza disso. Portanto, manterei uma postura rígida, exigida por um texto teórico.
A teoria dos Bráulios surgiu dessa variedade de escolhas; é claro que contamos também com o clima tropical, algo que tempera o estado de ânimo e transforma a vida em algo mais alegre. Pensei em usar o termo colorido no lugar de alegre, mas algumas palavras nos parecem inadequadas demais por gerar outros semas que possibilitariam uma interpretação errônea. Bráulio é Bráulio e pronto. A Seis quando me convencia naquele boteco de pertencer à irmandade, falara em meus ouvidos que enxerga duendes. Imaginei logo de início que os tais duendes era uma metáfora para o órgão genital masculino. Estava certo. O pior dos Bráulios era o fato de que até as mulheres queriam ser espadas, o que me fez cair fora rapidamente. Muitos irmãos e irmãs haviam protestado, uma vez que eu era o número Oito. Não liguei para nada. Sai. Por outro lado, carreguei comigo o mais fino dessa confraria, da qual agora, denomino A Teoria dos Bráulios:
Não há beleza no mundo sem as mulheres e isso qualquer homem concorda; digo homem, não me interessa as discussões homossexuais do tempo presente. A verdade é que sentado em uma mesa de bar num final de sexta-feira com meu amigo Patrick; pude observar o quanto da vida é efêmero e o que leva tantos homens a busca de mulheres perfeitas. Nesse caso, as prostitutas. Sei que muitos irão discordar ao ouvir isso, mas não se trata de nenhuma verdade. Isso é crença teórica e no melhor que você pode fazer é ouvir e pelo menos entender do que se trata. O público feminino no mínimo dirá que as putas nem se quer preenchem o requisito de ser mulher de verdade, mentira, mulher por mulher cafetão por cafetão, encontramos de montes. É provável que você, como leitor, esteja achando tudo isso teórico demais, por outro lado, o nome já diz ; trata-se dos Bráulios.
As mulheres que me perdoem, mas este texto não possui assim um caráter feminino nem tão pouco discorre de assuntos pertencentes a esse universo, quando pensamos na delicadeza e sensibilidade que só as mulheres possuem. A verdade é que mesmo na confraria, havia muitas mulheres nos seguindo; motivo esse que fazia muitos homens aderir a nossa causa, ainda que até hoje não sei direito qual é a causa, além de foder, é claro. Lembro-me claramente que o número Vinte e Quatro dizia que seriamos mais poderosos que os Iluminates. – Cale a boca! Os Iluminates nunca existiram! Isso é teoria de retardado. O que existe é o Bráulio!  Não há nada aqui que não seja de conhecimento popular, mas ainda assim não deixa de ser teoria. Bráulio significa espada em fogo, de acordo com sua raiz germânica. O que no nosso caso não importa muito, uma vez que nossas reuniões eram sempre em lugares abertos. Estávamos sentados numa mesa de bar, vendo a variedade de mulheres que desfilavam na Estrada do Pedroso quando o Vinte Quatro disse aquela asneira da qual o repreendi. A origem da palavra é apenas um dos significados, existem ainda os da prestatividade ou o da numerologia que indica o número seis. Não sei. Para muitos, braular significa foder. Para outros, Bráulio nada mais é que o órgão sexual masculino denominado de pênis, mas no popular encontramos pinto, pau, rola, cacete, tora, vara, caralho e tantos outros nomes que não me é possível listar neste estudo científico. Eu prefiro dizer caralho, porque rima com malho, é mais bonito e se lembrarmos os marombeiros das academias, então temos um sentido estético também.
Outra confusão que levou os Bráulios a se dividirem em direitas e esquerdistas foi à definição da palavra foder. A palavra foder pode ter origem na latina “fodio” que significa cavar, escavar, furar, transpassar, vazar, no caso os olhos e isso é muito significativo, pois um homem sente vontade de foder uma mulher quanto ele a vê. O que foi mais ou menos o ocorrido naquela noite de quinta-feira quando conheci a Seis. Também existe o sentido figurado de tirar, aguilhoar, torturar e isso tudo lembra o sadismo, espicaçar e dilacerar e por ai vai. Lembre-se que o termo libertinagem também está próximo da palavra liberdade, dizia o número Dois, encarregado de ensinar a doutrina aos recém batizados. O que em prática não representa a realidade, um desses vocábulos é aceito na sociedade, o outro é corrompido pelo purismo do preconceito. E isso também faz da minha tentativa de teorizar algo tão importante em um fracasso.
É melhor eu exemplificar com uma história real. Ainda que a realidade só possa ser captada por um momento, sem nenhuma reprodução. Quando fui à praça, no centro da cidade; encontrei o Gusta que queria beber um pouco e se distrair dos aborrecimentos da vida. Naquele dia, resolvemos andar e acabamos num bar próximo a estação ferroviária de Santo André. Havia uma ruiva dessas de cabelo tingido lá no fundo do bar. Eu e o Gusta vimos logo de cara. Mudamos de mesa; pensava em fechar a garota ali mesmo, mas ela foi embora. No final da noite, passamos no bordel ao lado, praticamente fazendo parede ao fundo do bar. Ela estava lá em todo seu esplendor de puta, tentando praticar o poli dance. A garota se chamava Marcela e tinha apenas dezenove anos. O Gusta estava sem dinheiro; eu busquei das minhas economias e fui. A mulher era casada e tinha um filho; me disse que saia com o rapaz daquela lanchonete onde estávamos, perguntei quem era.  - O moreno de cabelo em pé. Guardei o telefone dela. Ainda em outra tarde comentava com o Patrick esse desejo animal de sair braulando tudo. Ele me falava de Miss Julie, do Rubem Fonseca. Há muitos outros exemplos, existem aqueles que nos chegam por uma voz, como acontecera comigo, quando ainda lecionava em um colégio particular da cidade de Mauá. O Charles na sala dos professores havia me dito que um moleque de no máximo vinte anos saiu para beber e no auge de sua alegria, teve a sorte de ficar com uma garota muito boa, como não queria passar por ridículo e brochar. O que é bem natural na teoria dos Bráulios, diga se de passagem. O moleque tomou um viagra inteiro e acabou fodendo a garota a noite inteira, porém não ejaculou. Passou um dia inteiro com o caralho duro; acabou tento que contar aos pais, foi ao médico, mas havia passado tempo demais, cangrenou e teve que amputar o pau. Esse nunca mais braulou ninguém. Não sei, é necessário haver informação e responsabilidade, dizia à enfermeira que contou a história para o Charles. Entre tantas vitrines que nos passam, seja loura, morena, mulata, não importa. Vou continuar braulando.

Leandro Ramires Rodrigues é formado em Letras pela FMU, especialista em Literatura pela PUC-SP, atualmente realiza cursos como aluno especial na USP, lugar onde pretende abrir o mestrado em teoria literária. “Diálogos de metaficção em O Sol Se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho”. Leciona língua portuguesa, literatura e redação para o ensino médio desde 1998, passando por outras modalidades de ensino também. Atualmente, é o conselheiro de Literatura da cidade de Santo André – gestão 2010/2012. Não se considera poeta nem escritor, palavras complicadas de se definir, mas se aventura no mundo da escrita desde 1997, quando um abençoado professor de literatura na faculdade de letras resolveu dedicar se de graça, abrindo uma oficina de criação literária. Ficou doente e desde então não mais largou a poesia e a ficção.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

TRAVESSURAS DE MENINO



por Patrick Frasames de Barros

dedicado ao menino Rubem Braga

– Fiquei sabendo que o senhor possui muitos passarinhos.
– Sim alguns.
– Eles cantam?
– Sim todos cantam.
– Gosto muito de passarinhos.
– Por que não tem?
– Não tenho dinheiro para comprar.
– Existem meios de tê-los sem comprar.
– Como?
– Armando arapuca no mato.
– Você me ensina a fazer isso?
– Claro, que sim.
– Por onde devo começar?
– Vá a uma casa de aves.
– Fazer o quê?
– Comprar uma arapuca.
– Sem dinheiro?
– Sim, peça em meu nome.
– Moço me dá um passarinho?
– Só posso lhe dar uma arapuca.

quinta-feira, 31 de março de 2011

“O OUTRO...”

(La reproduction interdite, 1937)
Réné Magritte

Por Edi Roque
Seu nome era Edgar, como seu maior ídolo, Allan Poe, e lecionar era o seu ofício. Sabe-se que já não o fazia com o mesmo prazer de antes. Ao contrário, por vezes, encarava sua tarefa como uma sentença, um castigo divino acerca de seu próprio saber.
Seus pensamentos muitas vezes vagavam livres enquanto seu corpo físico estava ali, preso junto a um grupo de pessoas na mesma situação. A única diferença era que ele, na maioria do tempo, ficava em pé tornando a sua “separação do corpo” mais dificultosa, pois ainda assim, precisava manter sua postura e preservar o mínimo de respeito que ainda lhe restava perante seus alunos.
Porém, aquela noite carregava algo diferente no ar. Um clima tipicamente Londrino, apesar de incomum nessa época do ano e região, tomou conta da cidade. A forte neblina tornava uma simples caminhada nas ruas em uma aventura (salvo as proporções) Homérica. A cada passo era revelado um novo cenário ou um novo obstáculo onde, embalado pelo ritmo da caminhada, muitas vezes era impossível de se esquivar. O chão úmido e escorregadio fechava o “pacote” de maneira magistral. Certamente, nem o mais assustador trem-fantasma criado pelo homem se compararia com tal perfeição a essa obra da mãe-natureza.
Com certa dose de cuidado, conseguiu o professor chegar à escola sem adquirir muitas escoriações pelo caminho. Como de costume, chegou mais cedo e pôs-se a escrever no quadro negro enquanto os alunos pouco a pouco se acomodavam nas poucas cadeiras disponíveis já em posição de cochilo. Professor e alunos compartilhavam com desgosto algumas caixas de papelão e demais objetos decorrentes de uma reforma mal administrada, amontoados nos cantos da pequena sala.
Subitamente, o silêncio tomou conta da sala. Em uma noite normal, seria possível ouvir o ronco contido de um aluno menos interessado em literatura. Mas naquela noite, um ar frio e denso entrou pela porta como sopro que congela não só o corpo, mas também o espírito.
Tal silêncio parecia envolver o mundo inteiro, dentro e fora da escola. Tudo estava mudo. Seus ouvidos estavam tão abafados que podia sentir pulsar dentro de sua cabeça as batidas do seu coração, fortes e cadenciadas como a “Sonata ao Luar” de Beethoven.  Imaginando ser o último ser vivo na face da Terra, Edgar virou lentamente para trás e deparou-se horrorizado com “ele”. Vestindo uma capa longa que mais pareciam asas negras de um pássaro da morte, lá estava “ele”, no último dia de aula, ao fundo da sala, em pé, simplesmente a lhe encarar.
Quem é este? Pensou. De onde surgiu? A que veio? Todos os músculos de seu corpo se enrijeceram e sua respiração tornou-se ofegante. Simplesmente não conseguia encarar aquele homem misterioso que permanecia ali como se o desafiasse a olhar nos olhos ou como se estivesse esperando uma ordem dos céus ou do inferno para ceifar-lhe a alma.
Amigos vão-se embora, este ser também há de ir, pensou o professor numa tentativa inútil de reunir forças e tomar alguma atitude, ainda que fosse a fuga. Mas seus pés o traíram e lá ficou, estático, pálido e totalmente dominado por aquele anjo negro que também permanecia imóvel e indiferente ao seu terror.
O mais agonizante de tudo era o fato de que ninguém parecia notar a presença daquele homem ao fundo da sala e ninguém se preocupou em ver o professor ali parado, trêmulo e sem reação. Em seus pensamentos, rapidamente analisou que, por se tratar de um espírito, somente as pessoas marcadas para morrer é que poderiam enxergá-lo e isso o fez sentir um nó na garganta e o desespero em imaginar uma vida inteira pela frente que seria ali interrompida contra sua vontade.
Ainda tenho tanto a fazer. Isso não é justo. Deus, por quê está fazendo isso comigo? Sequer tinha forças para balbuciar tais pensamentos. Dizem, nesses momentos, um filme passa em nossas mentes, mas a única lembrança do professor era a sua vida inútil. Perdera todo o seu tempo vivendo sozinho e infeliz, em meio a livros cheirando mofo enquanto dividia o silêncio de sua rotina tediosa com um gato tão soturno quanto ele. Aliás, o gato é o animal de estimação dos solitários.
Uma lágrima correu pelo seu rosto gelado e finalmente despertou em si um leve riso. Suspirou...
Eu mereço morrer. Conformou-se enquanto fechava os olhos e abria os braços. Nesse momento, o sinal indicando o fim da aula fez-se ouvir e só então os alunos, ao sair da sala, perceberam o estranho gesto do professor que permanecia com seus braços abertos num gesto de total entrega e aceitação de seu destino.
Nunca mais, nunca mais, disse o último aluno ao passar por ele e sair. Imediatamente se encheu de coragem, abriu os olhos para encarar o anjo negro e, ao menos, morrer com dignidade, mas eis que o anjo se encontrava com os braços também abertos, exatamente na mesma posição. Totalmente desajeitado o professor virou-se para a sua mesa e, colocando os óculos, voltou-se novamente para o anjo da morte, qual foi a sua surpresa ao ver que sua imaginação transformou um velho e quebrado espelho encostado na parede em um ser tão aterrorizante quanto libertador.
Sobre o autor:
           
            Edi Roque é músico, cantor e compositor com mais de 10 anos de carreira. Possui em seu currículo dois discos autorais (um deles lançado e divulgado no Japão), além de inúmeras participações em gravações de outros artistas, trilhas sonoras, jingles publicitários e produções de artistas nacionais e internacionais. Atualmente, vem desenvolvendo seu trabalho voltado à música instrumental.

Nascido em Santo André, região do Grande ABC famosa pela safra de bons artistas. Edi Roque trabalha desde 1997 suas composições com a proposta de fazer “um pouco de música sincera, feita com o coração” e o show atual mostra o resultado de toda essa dedicação, amor à música e bom gosto, captando toda a sua expressividade através de arranjos inéditos e melodias inspiradas.

Em suas apresentações atuais, Edi Roque reúne a experiência adquirida em palcos e estúdios, demonstrando todo o seu potencial sonoro, seja acompanhado por uma competente banda de apoio ou através de bases pré-gravadas (playback) em alguns workshops com menor estrutura.

 No repertório do show, músicas inéditas do novo álbum intitulado “Caminho”, definidas como “Expressive Rock”. Devido ao contexto intimista bem como seu conceito sonoro, o CD apresenta execuções que fundem lirismo e virtuosismo em arranjos totalmente originais.

Edi Roque pretende com este novo trabalho apresentar uma visão pessoal e criativa, sempre honrando suas origens, através da música instrumental.

EDI ROQUE

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