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sábado, 4 de junho de 2011

III – Lobos


 Leandro Ramires Rodrigues

O riso risca seu rosto em fase de meia lua
A lua não revela à alma ao Viajante que continua...
Dentro de ti há um sangue ausente e um veneno crescente
Dentro de mim há um espelho que me viaja a lugar nenhum,
Minúsculo grão
E os dentes que deforma a boca e se alimenta d’alma...
Da janela meus olhos alcançam o Viajante em fantasia de soldado
A terra lhe dorme o sono de rios contidos em soltos copos

                                       
Um cão sem dentes é a boca do homem em manta de universo
Ainda não sei a resposta que o Viajante dará a vida,
A vida me faz uma resposta em fantasia de terno e gravata
A vida para alguns é uma voz e para tantos um ouvido
Fecho a janela e percebo que nem a casa havia
O espaço aberto é minha cama ou outro momento da cabeça
O cão sou eu que estendo a mão para o Viajante,
Antes que a noite floresça em sol e o horizonte cresça


II – À noite.




                                        Chego ao morro com o peso do corpo e morro,
                                        Do outro lado o espaço se rasca ao som do samba
                                        Essa festa é a roupa que lhe empresta a morte
                                        Viro fantasma e atravesso a parede
                                        O Viajante está no meio de proibidas fumaças vivas
                                        Na sala, os pais contam a Miséria e espera o Viajante
                                        Viagem de todo dia na cidade alma, concreto de ilusão
                                        Volto para meu quarto: - onde eles estão?

                                
                                        O convite me apertou a mão além da parede
                                        Alegria da noite molda a figura de tristeza na manhã
                                        E o grito me rompendo a mente como sol apaga o abismo
                                        O Viajante reduzido de amores é resíduo de família
                                        Antes o eu nele existia como um sorriso sem verniz
                                        E o tempo dos pais está lhe rascando o bolso carne,
                                        Rosto de uma arquitetura sem memória destrói o Viajante
                                        No trabalho, o bom dia lhe revela o afago da desgraça



Leandro Ramires Rodrigues

Percepção



Leandro Ramires Rodrigues 

                   Para Wall.
Teus olhos de árvore em fogo transluzem,
o amargo frio que respira o eco de minh’alma
Assim és sol e talvez uma neblina que se vai a estio,
e envolve em manta os mornos olhos de teu amigo


E faz da tua geografia um rosto inclinado a luz do sagrado
Enigma que vejo ao vento dançando em teus cabelos sem agrados
Como uma estrela rela ao mar a deserta luz que lhe sobrou na manhã calma
Assim és no mundo, flor de lótus, cujos olhos respiram uma yelda oculta no infinito...


imagem: http://renaclo.blogspot.com/2010/06/blog-post.html

Abstrato


Leandro Ramires Rodrigues 




Um retrato em retalhos de imagem em bordas de mares d’agonia
quando translúcidas águas reluzem o lume da vida no meio
eu nomeio tantas vozes no silêncio dos olhos da madrugada
e o riso se torna em máscara mas cara do mundo são plumas
contornam um rosto em tantos traços o mesmo carnaval, o ritmo
explosão que se mistura no desenho do concreto à imagem da margem
Pulsam palavras, oceanos repelem mares, como ondas de vapor


O tom, som, cores e flores não fazem o desenho – são!
arquitetura lingüística que risca a gilvaz de tantas almas
porta aberta ao nada que sai do nada como entra aos olhos a chuva
transborda em cachoeiras de avenidas a memória do espelho
geometria de cidades, corpos ocos no vazio espaço do papel
e a esperança consome a luz, raspa o verniz e fica o desespero
Sem máscara o abstrato é o ritmo da vida em fulgor de mil sóis

Os Portais

Dali

Adriana Bechelli


adormece meu corpo
sobre o cais
harmoniosa(mente)
criaturas pairam
em direção o nu estático
alimentam e domam
a desmedida inocência
no entardecer
o tempo é o templo
de um olhar
mira
nasce o rito
romã
entre vê 
um elefante


Kronos


Adriana Bechelli



o relógio marca seis horas
diante da minha inquietação corre o tempo
não queira saber o que se passa
a frente de um minuto

todos os relógios marcam seis horas
o tempo de cada um
é des(semelhante)

do mesmo modo o se ajustar
até o tempo precisa do outro pra direcionar
assim fazemos jus das amarras do relógio
em outros cíclicos são como efêmeras

são seis horas e um minuto....

domingo, 24 de abril de 2011

SEM TÍTULO


Enquadro o meu corpo na Pessoa, queira eu descobrir o mistério de Fernando.
Deleito nos instantes de uma mesa e sob os pés toco na ponta do chapéu que me olha entre tantos que transitam entre Orfh (eu).
Enquanto aqueço e saboreio a xícara branca, envolto a pessoa a mesa e degusto a vida, as cores e os sabores...
O que é pra ver fica no espreito da gaveta e no interior existe o perigo que ainda não me arrisquei.

Adriana Bechelli


terça-feira, 5 de abril de 2011

GAIA

Gaia

Enquanto os bezerros mamam
Nas tetas cheias de leite
Fecham os olhos, demoradamente
Como lembranças internas, de cores vivas.

Próximo a ele, surge
Um casal. Que repentinamente
Fazem declarações de amor... Calorosamente
Um guri cantarola na estrada

Versos do verde da mata
Uma Seda leve, parte dela,
Um quarto de Gaia, único!

Ah! Acolhe-me em teu peito o sepulcro,
Minha Gaia, de paixão e do acaso,
Ah meu adorado e maravilhoso Brasil!

Léa Gomes da Cruz Soares

Natural de Santo André
Formação
Assistente Social - Formada pela FAPSS - Faculdade Paulista de Serviço Social de São Caetano do Sul - 1996.

Especialista em Serviço Social Hospitalar - HSPE _ IAMSP - FUNDAP - 2000

Especialista em Serviço Social Direitos e Competência - Formada pela UNB - 2010.

Encarregada do Centro de Referência a Mulher em Situação de Violência "Vem Maria" da Prefeitura de Santo André, desde 2005.

Formada em Letras pelo IESA - 2010 - Apaixonada por Literatura.

Texto em Prosa, publicado na Revista Tantas Letras de 2009 - "Como Escrever".

NÃO VOU MAIS ME EMBORA




Não sou mais amigo do Rei
Se aqui te encontro
Bem imaginas o que farei
Te mato e sabes muito bem

Não vou mais embora
Pra nem posso dizer o nome
Pois este  nome  me da sede da cabeça
De um homem

Pois lá o que me ofereceste
Se procurar por 100 anos
Jamais encontrarei
Pois tua cobiça lhe corrompeste
Não vou mais embora
Ah!!! Reinaldo meu Rei
Se aqui te encontro
Te considero um homem morto

Levaste o meu maior bem
Deitaste com a mulher que escolhi
Na cama que imaginei
A quem tanto amei
Foi lá...e não me esquecerei,
Na esquina com a rua do armazém.

Regiane Coutinho


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Fósforo Angustiante

Willian Medeiros


Na chama crepitante,
de um fósforo angustiante,
Tal a chama angustiada
dos anjos escaldantes.

Veio-me o sabor do enxofre,
o amargo do café.
EU, ser de pouca fé,
dominado por versos podres.

Na fumaça, crônica, o toco preto.
A brasa do cigarro,
na garganta o maldito pigarro...

Nas folhas, pulmões amarelos,
versos malditos, belos, porém, negros...
Presos num soneto, morada, e alvéolo.


Possui graduação em Letras - Literatura, Especialização em Praticas e Vertentes - Literatura Africana e Infantil e Mestrado em andamento no curso de Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Brasil.

Título de tese: Restauremos a Poesia em Cristo: a poesia religiosa de Jorge de Lima, Ano de Obtenção: 2012.

É professor, palestrante, coordenador editorial e escritor, autor de vários livros de ficção e artigos em revistas.

Atualmente é professor convidado em Universidades e colégios onde ministra aulas sobre Literatura, Escrita Criativa, o Conto Contemporâneo e a Poesia. Oficinas em diferentes abordagens que vão desde a criação de peças e construção de fantoches a Poesia e a Poesia Modernista de Jorge de Lima.

Coordena o curso Leituras Literárias: Reflexões e Escrita na Casa da Palavra.

quinta-feira, 31 de março de 2011

A SONATA EXTRAVIADA

fiorentinos musician angel


por Denise Perini

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Adélia Prado


A noite não tem lua,
e até as estrelas se fecharam atrás
das nuvens espessas.
Nem Damas da Noite e
tão pouco os pobres gerânios.
Não há flautas docemente melodiosas.
A única música que ouço
vem dos acordes entristecidos do meu coração.
Soltos no tempo ficaram
a juventude, a ternura e a graça de viver.
Comigo só vieram a dor, a tristeza e bem lá no fundo...
um resquício da emoção perdida
quando me lembro dos olhos dele...
Ah, Adélia! Perdoe-me!
Não fui doida e tão pouco santa.
Oscilei entre o medo e a sensatez.
Encarcerada pelas convenções hipócritas,
não abri a janela.
E hoje, prisioneira de mim mesma,
me pergunto:
Faltou loucura ou sobrou santidade?



CANÇÃO DA VIDA





Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá
Gonçalves Dias


Minha vida tem momentos,
De alegria e prazer;
Como as aves que cantam,
Em todo amanhecer.

Nossos dias tem mais brilho,
Nossas casas tem mais flores,
Nossas noites tem mais luzes,
Nossa vida mais amores.

Ás vezes, sozinha, à noite,
Mais prazer encontro no lar;
Minha vida tem momentos,
Pois tem harmonia lá.

Minha casa tem alegrias,
Que sempre vivo a encontrar;
As vezes, sozinho a noite;
Mais prazer encontro lá.

Permito Deus que eu não morra,
Sem que eu volte para o lar;
Sem que desfrute a família,
Que encontro por lá;
Que eu tenha muito momentos,
De alegria e cantar.


Sobre a poeta



Margarida é mãe de 2 filhos, estudo na Unianhanguera no curso de Pedagogia.

Metamorfoses (em oito partes)


Fragmento
                                   
                                I – O quarto.

A manhã me arranha o rosto com som molhado
                                   Encostado na parede como rede estou em luz,
                                   Ofusca o grito do Viajante do quarto ao lado
                                   A noite se foi em siluetas de samba e abraços de mulher
                                   Do meu lado, a existência é um dia nublado,
                                   Mas o Viajante jantou o pó de sua jornada...
                                   Agora o desespero produz da manta um casulo,
                                   Libera a carne e a roupa de um inseto homem.

                                   O grotesco risca a metafísica do sonho
                                   Vejo as mutações de multidões no cimento
                                   As muitas pernas se voltando para o catre sol,
                                   Catedral imagem leva o Viajante o grito pó
                                   A casa corre tanto dentro quanto fora,
                                   A casa é um rio sem corpo e de muitas vozes
                                   Faz viagem no Viajante que não deixa a cama
                                   Reclama a chama e sai na ausência os olhos de vida


Leandro Ramires Rodrigues é formado em Letras pela FMU, especialista em Literatura pela PUC-SP, atualmente realiza cursos como aluno especial na USP, lugar onde pretende abrir o mestrado em teoria literária. “Diálogos de metaficção em O Sol Se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho”. Leciona língua portuguesa, literatura e redação para o ensino médio desde 1998, passando por outras modalidades de ensino também. Atualmente, é o conselheiro de Literatura da cidade de Santo André – gestão 2010/2012. Não se considera poeta nem escritor, palavras complicadas de se definir, mas se aventura no mundo da escrita desde 1997, quando um abençoado professor de literatura na faculdade de letras resolveu dedicar se de graça, abrindo uma oficina de criação literária. Ficou doente e desde então não mais largou a poesia e a ficção.

LUZ


Por Leandro Ramires Rodrigues

O pavão é um arco-íris de plumas.
Rubem Braga

O orvalho é um atalho de cores
Desce o choro de Deus sobre a terra
Ali, onde o Pavão abre suas penas,
Sem saber que apenas’água há encanto
Canto mudo de um amante sem glória:
- É olhar o corpo no arco-íris que me veste



Leandro Ramires Rodrigues é formado em Letras pela FMU, especialista em Literatura pela PUC-SP, atualmente realiza cursos como aluno especial na USP, lugar onde pretende abrir o mestrado em teoria literária. “Diálogos de metaficção em O Sol Se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho”. Leciona língua portuguesa, literatura e redação para o ensino médio desde 1998, passando por outras modalidades de ensino também. Atualmente, é o conselheiro de Literatura da cidade de Santo André – gestão 2010/2012. Não se considera poeta nem escritor, palavras complicadas de se definir, mas se aventura no mundo da escrita desde 1997, quando um abençoado professor de literatura na faculdade de letras resolveu dedicar se de graça, abrindo uma oficina de criação literária. Ficou doente e desde então não mais largou a poesia e a ficção.










 

DESASTRE AÉREO

                                      
Por Maria de Fátima de Souza
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius.
Jorge de Lima 
Ainda sinto o cheiro de morte no ar! Vejo sangue que personifica os corpos com suas lembranças e objetos de adoração. O piloto, embaixo da fuselagem do avião, segurava uma flor, agora impedido de entregá-la ao seu amor. E o violinista, inerte e alvo como a neve, despencou sem tempo para pensar quais seriam as últimas melodias, tudo negro como sua cabeleira. Após a explosão, inicia-se o balé de pernas, braços e mãos. Pobres bailarinas! Tão jovens para dançarem no céu. Reconhecer os corpos? Missão impossível até para o parente mais próximo ou experiente profissional. Vejo chuva de sangue colorindo as nuvens, batizadas pelo sangue dos poetas escolhidos para representar a nação. A nadadora, bela a deslizar pelas ondas do infinito mar, mergulhava veloz, porém sem vida. Vejo crianças com suas bonecas, caindo rápido sem asas angelicais. Noto o pavor da mulher que transforma o buquê de rosas em um auspicioso pára-quedas, e o vestido reluzente da soprano desenhar no pentagrama celestial uma escala cromática descendente. As badaladas do sino eram ensurdecedoras chorando o triste fim coletivo. Será que a jovem cega e adormecida na cabine não acordou no meio de tanta confusão? Oh Deus, como pode o paralítico atravessar o céu e ser mais rápido que o vento?! Agora a chuva de sangue tinge os algodões celestiais e a visão turva de alguns poetas confunde o cenário com a aurora boreal.

Maria de Fátima de Souza formada em Adm - Comércio Exterior, trabalho como secretária na Universidade Metodista, Setor de IT; Pós-graduação em Tradução Inglês-Português (2010) e Tradução em Espanhol-Português (2011); Hobbies: Viajar como "mochileira" para conhecer outras culturas e atleta de corridas de rua...futura maratonista.