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terça-feira, 7 de junho de 2011

Atiaîa

Pisco Del Gaiso

 Leandro Ramires Rodrigues
     De um apartamento de classe média, Iurema observa pela janela a geografia que apaga o aracê da zona leste de São Paulo. Imagina-se pequena entre aqueles prédios vizinhos e mutuados de gente sem propósito. Lá na caatinga o verde das matas transborda a humanidade de vida a romper zênites que para o homem branco seria impossível.
     Karajá sonhava em estudar em São Paulo. Iurema que era a irmã mais nova achava estranha essa vontade de branco em índio. Não dizia nada porque além de ser mais nova, sabia que ninguém lhe daria atenção. Havia ganhado o respeito na aldeia quando Ci lhe entregou a vida de Taîasu em suas mãos. Alimentava aquele bicho como se fosse o próprio filho; para o Pajé, a vida contida nos seios de Iurema era a resposta que Ci dava a modernização da aldeia. O índio não deveria perder o contato com a natureza, onde todas as vidas estão contidas em uma só.
     Não era nenhuma novidade para Iurema alimentar um porco; foram os olhos do Pajé que desenharam um novo destino para aquela ação. Nessa época, Karajá se encontrava em São Paulo cursando educação física em Santo Amaro. Foi através do irmão que Iurema teve reconhecimento no Brasil, pois o irmão havia servido de amanajé de seu povo; ainda que de forma involuntária, quando saiu da faculdade no período da manhã, lá estava o fotógrafo da Folha de São Paulo. Queriam realizar uma reportagem na aldeia e o acaso os levou lá em Mato Grosso, onde Iurema foi fotografada amamentando Taîasu. 
     Iurema lembrava bem as palavras do Pajé a respeito da lenda de Tapeyára. Houve uma época em que um cari fora ao mato casar porcos para a alimentação de sua família. Encontrou uma porca com vários leitões. Cari não pensou duas vezes em escolher a mãe que era mais gorda. Matou. Os outros perseguiram-no até que cari subiu em uma árvore onde do alto consegui exterminar mais três porcos furiosos. Os animais cavaram até a raiz da árvore, derrubando cari que fora levado à presença de Tapeyára, mãe de todos os porcos. Cari ficou aprisionado. Durante esse tempo comeu uixis, buritis ou biribás que era o alimento que os porcos davam a ele. Cari, um dia, se deitou a sombra de uma árvore, à beira do rio e, quando todos os porcos dormiam, ele a escalou e passou pelos galhos de uma árvore para outra, saltou n'água e se escondeu na copa de uma árvore do outro lado da margem. Havia levado a herá deles consigo. Quando se aproximava do aracê, os porcos descobriram a sua fuga e cercaram todo o igapó à sua procura sem, ao menos, descobri-lo. Ele retornara a casa, onde encontrou mulher e filhos que já o imaginava morto em algum lugar da caatinga. Ele convidou a mulher, o irmão e toda a família para caçarem os porcos da sua companhia. Ficaram todos na canoa. Cari soprou duas vezes a herá. Logo surgiu, em tropel, um gigantesco número de porcos, dos quais ele matou a maioria. Passaram se vários arás até que apareceu seu outro irmão, vindo de uma terra longínqua. O irmão perguntou como cari havia matado tanto taîasus. Roubou a herá do cesto do irmão e ainda zombou dele por ter sido capturado pelos animais. Ele foi pelo caminho da terra e soprou a herá que estava com cari. Os taîasus chegaram e o caçaram sem piedade, foi comido vivo pelos porcos. E outra vez a herá voltou a Tapeyára, mãe de todos os porcos.
     Lembrar histórias desse tipo perdera o sentido. Da janela, Iurema observa o carro do corretor de imóveis. Venderia tudo, incluindo os móveis do irmão. E voltaria para a aldeia. E mesmo assim não escaparia da presença dos brancos. O homem branco havia construindo outra floresta, artificial, mas que aos poucos estava engolindo toda a caatinga, todo o verde, toda a vida. O mesmo acontecera com a foto, Iurema havia achado engraçado quando o irmão havia lhe contado que em um curso de literatura que por acaso resolvera frequentar em Santo André. Ali foi mostrada a imagem da irmã amamentando Taîasu, um rapaz do curso afirmou que a foto não era foto. Iurema era só uma japonesa fantasiada de índia. Não entendia o porquê uma imagem, não era mais uma imagem para os brancos.  Era sempre homem branco que vez ou outra aparecia na aldeia e era bem recebido por todos, como é o caso do professor Ítalo que os visitara recentemente, quando a morte do irmão já saíra dos jornais para se tornar menos que uma nota de rodapé na memória da grande História.
     Ítalo também havia recebido em casa o cacique da aldeia, junto com um grupo que chegava a quase vinte índios, pensara ingenuamente que receberia três ou quatro índios em sua casa no Rio de Janeiro; comprou várias alfaces, legumes, tudo na feira. Depois das duas viagens na van, o cacique havia lhe dito que alface, eles comiam na aldeia. Queriam pizzas. Por um momento, Iurema riu ao lembrar essa história que Ítalo lhe havia contato, quando retornara com os índios a aldeia. O cacique e todos os outros viam com bons olhos aquele pequeno romance de Iurema com Ítalo, pensavam que ele seria aturasá, não era, e por isso foi embora. Era mais fácil um índio se tornar branco, pensara Iurema. Também lembra constantemente das palavras do cacique que dizia não entender homem branco. Quando visitara Ítalo, eles passaram em um mercado, lá fora um dos índios apontava para um mendigo escorado no muro do mercado. Olha lá! Tá com fome, não entendo homem branco, aqui dentro cheio de comida e lá olha, passando fome! Quer comida... Não entendo.
     Hoje nada disso mais traz alegria. Karajá havia sido agredido na cidade de Parelheiros quando foi visitar, longe de minhas vistas, um amigo guarani. Encontrou outro que estava embriago e sendo espancados por dois caris. Os caris, penso eu, são o añaretá do índio. Alguns são de alma aeté, como é o Ítalo. Ainda me lembro de meu irmão naquele hospital de Goiás, antes de chegar a nossa aldeia. Morreu de traumatismo craniano, dias depois. Lá o branco não será mais festejado. Toca a campainha, Iurema sabe que ao se livrar do corretor; voltara à aldeia e Taîasu irá se tornar parte da grande atagûasu.

sábado, 4 de junho de 2011

III – Lobos


 Leandro Ramires Rodrigues

O riso risca seu rosto em fase de meia lua
A lua não revela à alma ao Viajante que continua...
Dentro de ti há um sangue ausente e um veneno crescente
Dentro de mim há um espelho que me viaja a lugar nenhum,
Minúsculo grão
E os dentes que deforma a boca e se alimenta d’alma...
Da janela meus olhos alcançam o Viajante em fantasia de soldado
A terra lhe dorme o sono de rios contidos em soltos copos

                                       
Um cão sem dentes é a boca do homem em manta de universo
Ainda não sei a resposta que o Viajante dará a vida,
A vida me faz uma resposta em fantasia de terno e gravata
A vida para alguns é uma voz e para tantos um ouvido
Fecho a janela e percebo que nem a casa havia
O espaço aberto é minha cama ou outro momento da cabeça
O cão sou eu que estendo a mão para o Viajante,
Antes que a noite floresça em sol e o horizonte cresça


II – À noite.




                                        Chego ao morro com o peso do corpo e morro,
                                        Do outro lado o espaço se rasca ao som do samba
                                        Essa festa é a roupa que lhe empresta a morte
                                        Viro fantasma e atravesso a parede
                                        O Viajante está no meio de proibidas fumaças vivas
                                        Na sala, os pais contam a Miséria e espera o Viajante
                                        Viagem de todo dia na cidade alma, concreto de ilusão
                                        Volto para meu quarto: - onde eles estão?

                                
                                        O convite me apertou a mão além da parede
                                        Alegria da noite molda a figura de tristeza na manhã
                                        E o grito me rompendo a mente como sol apaga o abismo
                                        O Viajante reduzido de amores é resíduo de família
                                        Antes o eu nele existia como um sorriso sem verniz
                                        E o tempo dos pais está lhe rascando o bolso carne,
                                        Rosto de uma arquitetura sem memória destrói o Viajante
                                        No trabalho, o bom dia lhe revela o afago da desgraça



Leandro Ramires Rodrigues

Percepção



Leandro Ramires Rodrigues 

                   Para Wall.
Teus olhos de árvore em fogo transluzem,
o amargo frio que respira o eco de minh’alma
Assim és sol e talvez uma neblina que se vai a estio,
e envolve em manta os mornos olhos de teu amigo


E faz da tua geografia um rosto inclinado a luz do sagrado
Enigma que vejo ao vento dançando em teus cabelos sem agrados
Como uma estrela rela ao mar a deserta luz que lhe sobrou na manhã calma
Assim és no mundo, flor de lótus, cujos olhos respiram uma yelda oculta no infinito...


imagem: http://renaclo.blogspot.com/2010/06/blog-post.html

Abstrato


Leandro Ramires Rodrigues 




Um retrato em retalhos de imagem em bordas de mares d’agonia
quando translúcidas águas reluzem o lume da vida no meio
eu nomeio tantas vozes no silêncio dos olhos da madrugada
e o riso se torna em máscara mas cara do mundo são plumas
contornam um rosto em tantos traços o mesmo carnaval, o ritmo
explosão que se mistura no desenho do concreto à imagem da margem
Pulsam palavras, oceanos repelem mares, como ondas de vapor


O tom, som, cores e flores não fazem o desenho – são!
arquitetura lingüística que risca a gilvaz de tantas almas
porta aberta ao nada que sai do nada como entra aos olhos a chuva
transborda em cachoeiras de avenidas a memória do espelho
geometria de cidades, corpos ocos no vazio espaço do papel
e a esperança consome a luz, raspa o verniz e fica o desespero
Sem máscara o abstrato é o ritmo da vida em fulgor de mil sóis

Amigos



     Meu pai já me dizia que um homem louco não sabe reconhecer a própria casa. Faz algum tempo que acordo sozinho neste apartamento vazio, lembrando a época de minha infância. Lá em Itaquaquecetuba quando criança ouvia meus pais me perguntando se eu havia feito amizade com alguém. Nada dizia. Nossa casa possuía um vasto quintal, portão de madeira sempre trancado com um cadeado enferrujado. Não havia laje, era luxo naquela época. Hoje penso que aquela casa era o meu melhor amigo.
     Era naquele lugar que eu estava habituado em assistir televisão com meus amigos. Tudo estava em preto e branco, mas a minha imaginação se assemelhara, naqueles momentos, em um eterno arco-íris.  Era sempre antes da escola. Víamos o He Man, Os Superamigos, o Thor e tantos outros heróis que estimulavam a nossa imaginação para qualquer aventura fora da realidade dos adultos. Só não gostava quando chegava à hora do almoço ou do lanche. Minha mãe nunca oferecia nada a eles. E a resposta que ela dava era sempre a mesma.  - Deixa de besteira moleque. Eles pouco se importavam nem sequer criticava o pão durismo de minha mãe; até porque eu também não frequentava a casa de nenhum deles. Estava sempre só no meu quarto ou na sala com a minha televisão.
     No meu quarto, depois que meus amigos iam embora, me deitava no catre e olhava o reboco das paredes; parecia o rosto enrugado de uma senhora de cem anos de idade. A cama era feita de lastros de couro, não tínhamos colchão. Eu não me importava. Fitava a parede e os pequenos buracos e desvios nela se tornavam rotas de fuga para algum lugar que hoje se perdeu em minha memória. Ria. Meus pais não gostavam – Tá besta, menino!
     Não tenho irmãos, a casa era pequena, o quintal grande, a imaginação maior ainda. Então chamava meus amigos sempre depois das aulas. Hoje já não me lembro da voz de nenhum deles; acredito que nem conversávamos direito. Eles ficavam esperando o ir e vir da escola; pena que eles estudavam em escolas diferentes. Na verdade, eu duvidava que até estudassem um dia. Quando batia o sinal do recreio, era uma festa, juntava meus colegas de escola e brincávamos de policia e ladrão ou rela e ajuda. Subíamos pelas velhas carteiras postas no pátio, pulávamos o muro que dava na quadra e a correria só acabava no momento que surgiam os professores.
     Éramos pobres. Penso que foi isso o motivo das primeiras brigas de meus pais. Tirando as desavenças que foram aumentando com os anos. Tudo era perfeito se comparado a hoje que estou só e sem família. O que mais tenho saudade dessa época eram as brincadeiras de polícia e ladrão. Outro dia, algumas crianças aqui da rua brincavam, não de policia e ladrão que já está ultrapassada, mas sim de polícia e traficante. Colocavam umas tábuas velhas que no inicio pensei ser um quartel general, mas era só a favela mesmo. Os policiais tentavam invadir a boca e os traficantes procuravam defender a cocaína que era um saco de farinha de trigo, provavelmente furtado da casa de um deles. O engraçado era que a polícia sempre perdia. Me deu uma vontade louca de entrar na brincadeira, mas meus vinte e cinco não me permitira mais tais excessos.
     Depois das aulas costumava relatar as brincadeiras e os ocorridos para meus amigos, já que eles não estudavam mesmo e estavam presente sempre quando eu os chamava. O que não era raro, pois antes do divórcio de meus pais, havia diversas brigas em casa, tudo ficava tão cinza que eu me sentia sozinho, até começar trazê-los a minha casa. Concentrava-me para isso, fechava os olhos, esquecia a embriaguez de meu pai e as reclamações de mãe e quando voltava à realidade, lá estavam. No início, pensei que meus pais se importariam ou com o horário ou quantidade de garotos que dormiam lá em casa. Nada. A nossa amizade, resumia em assistir aos desenhos.
     Minha mãe quando me pegava conversando com eles dizia.  - Ficou louco Juninho! Acho que ela nunca gostava de nossos papos. Até que um dia o vizinho da casa onde minha mãe trabalhava foi parar no hospital, após quebrar uma porta de vidro. Ele havia dito. Eu tenho a força! E tome soco na porta da sala. Só sei dizer que o menino não perdeu totalmente os movimentos da mão, porque aquela família tinha muito dinheiro. O tempo foi passando e nós começávamos assistir Cavaleiros do Zodíaco. Nas nossas brincadeiras eu era sempre o Pegasus. Mamãe se irritava com isso e me perguntava sobre as garotas, pois eu já era bem crescidinho para ver desenhos. Ela acreditava que eu tinha vergonha do lugar onde morávamos, era a casa mais humilde da rua e uma das mais pobres da cidade. Eu nem me importava. Mamãe trabalhava muito e queria outra vida.
     Mamãe vivia telefonando para meu pai, não sei direito a conversa; eu chegava próximo ao telefone; ela mudava a conversa e depois me passava o fone. Meu pai era pior ainda, sempre com voz de embriagado, repetindo sempre a mesma pergunta.  - Você tá bem? Hoje todos se foram, minha mãe morreu num acidente de trabalho, bateu a cabeça ao descer pela escada da casa onde trabalhava. Meu pai desapareceu logo em seguida. Às vezes, como hoje, me levanto e volto à mente naquela velha casa onde não havia nada e ao mesmo tempo tudo.
     Foi aqui nesse apartamento que mamãe me contou sobre um menino que havia ganhado da tia uma fantasia do superman. Gostava tanto do homem de aço que no aniversário em que ganhou a fantasia, correu, vestiu e voou da janela do décimo andar. Minha mãe não gostou quando perguntei se ele havia voado bastante. Não sei o motivo, mas fora com esta conversa que meus amigos resolveram me visitar menos. Começou no dia seguinte quando minha mãe me levou até aquela mulher, não me lembro o nome dela, mas todos a chamavam de Doutora. Ela me dizia tantas coisas diferentes e inteligentes que enfadaram meus amigos. Eles eram mais crianças do que eu.




O professor


Leandro Ramires Rodrigues

     Sexta-feira, já passa da meia noite. Não vai demorar muito. Poucas pessoas no mundo possui a paciência e a destreza necessária para que eu faço. A primeira vez foi uma libertação; os jornais noticiaram o fato, mas logo esqueceram, como toda violência nesta sociedade. Vejo o ônibus parando no ponto da D Pedro I, logo depois de cruzar a Capitão. Minha pesquisa estava correta, lá vem ele. Ligo o motor do carro.

     Hoje não trabalho. Minhas aulas vão até quinta-feira de manhã e isso me consome a alma. Lavei o carro, retirei a placa original e coloquei a falsa que eu havia comprado em um desmanche de carros roubados. Contato neste mundo é tudo. Moro sozinho em um apartamento velho no centro da cidade. Quando resolvi ser artista; entendi que deveria comprar um carro apropriado, somente para esse uso. Meu pai não dirige, então deixo o gol vermelho na garagem dele, em Camilópolis. Ainda hoje pela manhã meu pai me perguntou como eu fazia para lidar com tanta bagunça na sala de aula. A gente sempre cria um escape.

     Gosto de conversar com o velho porque ele não sabe nada. Havia me perguntado se eu me preocupava com a polícia que poderia me parar devido ao insulfilme que eu coloquei no carro. Nada disse. Quando o velho saiu para o boteco, aproveitei para lubrificar o trinta e oito cromado que eu tinha comprado na Ilha. Como eu disse, contato é tudo. Informação também. Neste meu serviço, é necessário muita pesquisa; por isso passei mais de um ano me informando a respeito daquele aluno, lugar onde mora, tipo de gosto, baladas que frequenta, facebook, orkut e por aí vai. Também mandei vários currículos para poder sair agora no meio do ano, daquele colégio particular. Tudo que consegui foi aumentar minha carga horária no Estado. Sai. Minha arte só pode ser executada duas vezes ao ano, no máximo. No geral demoro mais, eu fico irritado, mas fazer o quê? A arte não admite falhas.

     À tarde, resolvo tomar um banho bem quente. É inverno, preciso manter a alma limpa, penso nas férias daqui uma semana. Revejo todas as informações a respeito do aluno. Também tenho que contar com a sorte. No inicio da noite; passo com o carro no meu destino várias vezes, o revólver, deixei em casa. Se eu levar uma geral, não vão me prender por porte de arma ilegal. Ele está lá. No ponto, provavelmente vai para Figueiras encher a cara. O que de certa forma facilitará todo o trabalho. Deixo o carro em um estacionamento no centro e faço uma turnê pela Figueiras. De um orelhão telefono para o celular dele. Barulho. Conseguir esse número não foi fácil. Esse cara é um desses bostas de aluno que além de não fazer nada, fica na sala conversando e rindo alto. Certo dia me disse que ele pagava o meu salário, outro dia o diretor disse a mesma coisa; aguentei um pouco, ainda não tinha concluído minha pesquisa. A representação também é uma arte. Primeiro, a gente abre um orkut para adicionar os alunos, depois um facebook, até que a presa cai. Nesse meio, se o telefone não veio através do próprio aluno, sempre tem outro que passa.

      Nada respondi quando ele disse alô, estava identificando o som, o lugar que ele se encontrava. Tudo indica que é o Mezzanine. Adolescente do ensino médio adora esse lugar, principalmente os do terceiro ano. Coloco a toca da blusa, fico em um lugar discreto até que vejo o rapaz saindo, pelo jeito que anda está embriagado. Corro até o estacionamento e busco o meu carro. Se ele tivesse um carro ou os pais o buscassem, então seria muito difícil terminar meu trabalho; teria que esperar outra oportunidade. O cálculo nestas horas é importante.

     Chego primeiro. Se ele não parar em nenhum lugar, daqui alguns minutos, desce do ônibus.  Ele deve pegar o último. Só me faltava o infeliz voltar de taxi... Resolvo abrir a garrafa térmica com o chocolate quente que sempre trago quando resolvo trabalhar até mais tarde. É o ônibus. Lá vem ele. Ótimo, está sozinho! Ligo o motor para facilitar, coloco a garrafa do lado e visto as lufas. Aumento o volume do som, Carmina Burana, aprendi a gostar de música clássica escutando o Schizophrenia do Sepultura.

     Oi professor, O que faz aqui uma hora dessas, fala com um voz de bêbado. Cobrar a lição de casa. Puxo o trinta e oito e atiro no meio de sua testa. Retiro rapidamente o tênis do moleque, celular e carteira. Jogo tudo dentro do carro e vou embora, deixando o corpo jogado na calçada. Levou apenas um minuto. Estou melhorando, o outro havia levado sessenta e cinco segundos. Quando chegar em casa, vou quebrar o celular e queimar a carteira junto com o dinheiro e os documentos. Já o tênis posso guardar por uns dias antes de entregar a qualquer mendigo da Praça do Carmo. Penso que da próxima vez será uma aluna. Quem será? Eu sai da escola mas tenho certeza que na segunda-feira, os professores estarão chocados com a morte e, mesmo assim, alguns comentarão que foi uma benção. Olho do lado e me aborreço; esqueci a garrafa térmica aberta. O chocolate esfriou.
   

domingo, 24 de abril de 2011

Janela


Leandro Ramires Rodrigues

Hoje penso que os dias também são dos outros. Fernando mora do outro lado da rua. A casa sempre está vazia, mas há muitas pessoas passando por aqueles quartos. Quando vim morar aqui do lado da Tabacaria; seu jeito esquisito de andar, vestido todo de preto, ainda mais com aquele chapéu, não ridículo somente para quem viveu um século antes, me chamaram atenção.
Alguns anos atrás, quando precisei de um correspondente comercial para os meus negócios em língua inglesa, acabei encontrando Fernando sentado em uma mesa no fundo de uma sala. Estava lendo um livro de poesia; acho que o poeta se chamava Alberto Caeiro, mas poderia ser Álvaro de Campos ou Ricardo Reis. Admito que na época sentira certo desassossego em não compreender o poeta. Não importa, ficamos amigos e conhecer Fernando foi quase como fazer amizade com uma multidão de pessoas. Ele me ofereceu um charuto cubano, comprado na mesma Tabacaria que eu era freguês. Ainda quando aquele lugar era aberto, antes da morte do Alves; certo dia sai de lá e como por instinto virei-me e olhei para cima, estava Fernando que da janela gritou “Adeus ó Esteves” Depois que eu acenara a ele.
Não há metafísica no adeus e após a morte do dono da tabacaria, aquela janela passou a abrir cada vez menos. Lembro-me que uma das últimas vezes em que estava aberta, lá permanecia, todo de preto com o mesmo chapéu, óculos redondos, atrás uma mesa simples com uma xícara de café e uma pasta onde não pude ver direito o título. A luz iluminava o quarto deixando uma tonalidade avermelhada àquela hora da manhã, imaginara.
Hoje não existe mais janela, o existir está na certeza de que tudo um dia morrerá. Mas, enquanto ainda não morreu a língua portuguesa pude descer as escadas e encontrar Fernando na frente do que era a Tabacaria – Realmente, só tem duas datas, a que nascemos e a que morremos. Desculpou-se da presa porque precisava trabalhar. Desculpou-se do humor porque o médico o havia proibido de beber. Desculpou-se da vida porque ninguém o havia entendido. Caminhou. Olhei a frente e a tabuleta onde era a tabacaria. Vende-se.

Ego


Leandro Ramires Rodrigues 

Caminhava e caminhava. Todo dia Andirá saia ao trabalho, ônibus cheio, trem lotado e continuava. Já fizera algum tempo que havia se perdido no devaneio. – Preciso ir embora logo. Imaginava-se no banho tão logo pudesse ouvir o sinal que marcava às cinco horas da tarde. A indústria, ele não mais sabia onde ficava. Nunca havia lhe passado na cabeça o rosto do dono. Era um vazio que só lhe mandava continuar. Tocou o sinal. Andirá se tivesse alguma coisa, guardaria no armário, mas naquele dia achou estranho em pensar ser pobre. Estava apenas com as roupas do corpo e alguns trocados na carteira.
Logo que começou a andar na rua; sentiu certo tremor acompanhado de uma incrível tremedeira – eu não bebo. Continuou descendo por aquela rua sem nome, aliás, imaginava que toda rua daria para algum lugar totalmente diferente e assim, fugiria daquele lugar. Não havia rotas alternativas e a rua dava para um muro branco e sem saída. No muro observava a paisagem de uma praia, surfistas crianças construindo seus castelos e muito sol. Andirá ficara ali parado e quando percebe estar atraindo olhares interrogativos ao seu redor, saiu. Na verdade, sentira medo de alguém chamar a polícia, mas isso tudo era uma besteira, imaginava a cena, mostrando o RG e afirmando o local onde trabalhava, era ali. Ali onde? Iria dizer o policial, ali é ali e só.

Andirá redobrou o passo, não queria que ninguém o parasse; sentiu-se estranho cada vez mais, pois não sabia onde estava o local de trabalho, o mesmo que ele havia deixado uma hora atrás. – Não tem importância. Sua mãe havia lhe ensinado a não confiar em ninguém. Evitar conversas com desconhecidos, por isso nunca conversava; houve um tempo que Andirá esquecera o som da própria voz. Então saiu gritando por entre as ruas, lembrando como deveria articular as palavras para continuar existindo. Só queria voltar para casa, sentiu um aberto no coração e lembrou a falecida mãe – Continue meu filho, nunca pare! Queria achar a casa onde tem um retrato da mãe, colocado sobre a estante e com a intenção de manter na memória o rosto materno. Andirá tremia ao imaginar que um dia passaria um fantasma e recolheria também os traços e a aparência da mãe. O fantasma existia sim, repetia consigo mesmo, o fantasma já levou a voz de minha mãe.

- Tudo isso é uma tremenda besteira! Ainda hoje levantei de uma cama quente e me vesti. Ônibus e trem cheios a mesma rotina do trabalho. Andirá alcança o ponto de ônibus sentindo que nunca havia estado naquele lugar. Caminhara muito antes de chegar ao muro e o muro só o vez voltar atrás, retroceder como tantos outros lugares. Precisava de um ponto. Era ali que tomaria o ônibus, naquele ponto, já que um ponto é sempre a partida para algum lugar e todos os lugares estão ligados entre si, pensara Andirá um dia ser de todos os lugares. Hoje estava tímido e por isso começara a imaginar que um ponto nem sempre é um ponto. Havia outro ponto de ônibus do outro lado da rua. Aquele o levaria para lugares opostos, como um dia outros o fizeram e mesmo assim continuou a existir. Também não queria voltar de trem, espaço que liga dois pontos opostos. Há muitas pessoas lá se empurrando na vida; Andirá quando era mais novo sentiu vontade de se jogar nos trilhos, abraçá-los, mas não fez porque percebeu que abraçar os trilhos seria o mesmo que estar acariciando as grades e seus braços não teriam força para romper esse cárcere. Ainda mais agora que ficara velho.

Parado observava o fluxo de pessoas entrando e descendo do ônibus; ninguém olhava para seu rosto, era um fantasma até notar que o mesmo acontecia com todos. Então sentiu vontade de rir, rir como nunca até arrebentar os pulmões e quando percebeu que de sua boca já saia os primeiros vestígios de uma boa risada. Ficou com medo, haveria de passar um guarda ou um alguém qualquer lhe dando uma bofetada no rosto e lhe dizendo na cara - Ficou louco, seu bosta! Merdinha do caralho que fica aí no meio atrapalhando a vida dos outros.

Os outros são sempre os outros e passara a vida se contendo para não prejudicar os outros. Agora queria saber quem era. Abre a carteira e busca por um RG, uma identificação qualquer, não havia nada além de uns poucos trocados, fruto do trabalho e um nome em um papel branco, Andirá. Colocou a carteira no bolso da calça e entrou no ônibus mais vazio. Estava cansado de lotação. Percebeu que o caminho era o oposto realizado no dia anterior, também não lembrava direito do dia anterior, só que havia trabalhado; produzido em uma máquina da qual ele deveria retornar amanhã e continuar assim até o dia de parar. Mas parar e ir para onde? –Hoje não vou conseguir voltar para casa, isso o aborrecia, já fazia alguns anos que não retornava para casa, salvo poucas exceções como ontem, antes de sair estava em casa. - Por que eu fui sair?

Desceu do ônibus, estava com sede e no primeiro bar que encontrou pediu uma coca cola. Foi atendido e ali ficou por mais um tempo. Sentiu fome, mas não queria gastar seu dinheiro honesto. Se abrigou em outro ponto de ônibus, talvez haja tempo de voltar atrás. Um carro para e um bando de moleques o agride. Andirá não entende o motivo de tantos chutes e socos, mas a dor que foi aumentando, agora diminui e por um momento pensou que aquelas pancadas fossem uma libertação maior. Fechou os olhos e esperou o golpe derradeiro, mas este não veio. Algum barulho lá do outro lado da estrada havia espantado os libertadores de sua sorte. A sura o deixara em péssimo estado; queria parar, mas não sabia como. Na calçada virou para o canto e dormiu pensando que amanhã precisava trabalhar. E lá no fundo ouviu o sussurro de sua mãe que dizia – Andirá você é meu filho, continue, continue...   

terça-feira, 5 de abril de 2011

A teoria dos Bráulios




Pertenço a um grupo de pessoas seletas, se bem que hoje já tenho caído fora, pois a alienação daquela gente para o sexo passou dos limites da compreensão humana. Ainda me lembro bem das nossas reuniões realizadas à noite de sábados. Os Bráulios, era assim que nos chamávamos. Cada um possuía um número herdado não no ato de entrada, mas de acordo com uma interpretação numerologia criada pela nossa irmandade. Começávamos sempre exaltando a beleza de nossa pátria:
- No Brasil, existe uma incrível variedade de mulheres, dizia o número Sete, encarregado dos discursos de abertura. – Começando com as mulatas que se destacaram como rosto de beleza da nação brasileira. Há ainda outras de origem italiana, alemã, holandesa se pensarmos na época que o Brasil, ideologicamente, resolvera se clarear. O que deixou a trilogia étnica um pouco mais tênue. O que não vem ao caso aqui. A verdade é que me cansei desses discursos, o irmão Sete, às vezes me parecia um cachorro lambão. Quando entrei para nossa confraria; apenas estava interessado em foder a irmã número Seis, a mesma que me fez o convite num bar de esquina. Meu amigo me avisou da loucura daquela mulher, mas Luana era gostosa mesmo... Depois, passei a chamá-la de Seis, como todo batizado! O nosso batismo era orgia mesmo; não descreverei isso aqui, a finalidade deste texto é documentar para as gerações posteriores a existência da confraria dos Bráulios, nome que todos conhecem, mas poucos realmente compreenderam a beleza disso. Portanto, manterei uma postura rígida, exigida por um texto teórico.
A teoria dos Bráulios surgiu dessa variedade de escolhas; é claro que contamos também com o clima tropical, algo que tempera o estado de ânimo e transforma a vida em algo mais alegre. Pensei em usar o termo colorido no lugar de alegre, mas algumas palavras nos parecem inadequadas demais por gerar outros semas que possibilitariam uma interpretação errônea. Bráulio é Bráulio e pronto. A Seis quando me convencia naquele boteco de pertencer à irmandade, falara em meus ouvidos que enxerga duendes. Imaginei logo de início que os tais duendes era uma metáfora para o órgão genital masculino. Estava certo. O pior dos Bráulios era o fato de que até as mulheres queriam ser espadas, o que me fez cair fora rapidamente. Muitos irmãos e irmãs haviam protestado, uma vez que eu era o número Oito. Não liguei para nada. Sai. Por outro lado, carreguei comigo o mais fino dessa confraria, da qual agora, denomino A Teoria dos Bráulios:
Não há beleza no mundo sem as mulheres e isso qualquer homem concorda; digo homem, não me interessa as discussões homossexuais do tempo presente. A verdade é que sentado em uma mesa de bar num final de sexta-feira com meu amigo Patrick; pude observar o quanto da vida é efêmero e o que leva tantos homens a busca de mulheres perfeitas. Nesse caso, as prostitutas. Sei que muitos irão discordar ao ouvir isso, mas não se trata de nenhuma verdade. Isso é crença teórica e no melhor que você pode fazer é ouvir e pelo menos entender do que se trata. O público feminino no mínimo dirá que as putas nem se quer preenchem o requisito de ser mulher de verdade, mentira, mulher por mulher cafetão por cafetão, encontramos de montes. É provável que você, como leitor, esteja achando tudo isso teórico demais, por outro lado, o nome já diz ; trata-se dos Bráulios.
As mulheres que me perdoem, mas este texto não possui assim um caráter feminino nem tão pouco discorre de assuntos pertencentes a esse universo, quando pensamos na delicadeza e sensibilidade que só as mulheres possuem. A verdade é que mesmo na confraria, havia muitas mulheres nos seguindo; motivo esse que fazia muitos homens aderir a nossa causa, ainda que até hoje não sei direito qual é a causa, além de foder, é claro. Lembro-me claramente que o número Vinte e Quatro dizia que seriamos mais poderosos que os Iluminates. – Cale a boca! Os Iluminates nunca existiram! Isso é teoria de retardado. O que existe é o Bráulio!  Não há nada aqui que não seja de conhecimento popular, mas ainda assim não deixa de ser teoria. Bráulio significa espada em fogo, de acordo com sua raiz germânica. O que no nosso caso não importa muito, uma vez que nossas reuniões eram sempre em lugares abertos. Estávamos sentados numa mesa de bar, vendo a variedade de mulheres que desfilavam na Estrada do Pedroso quando o Vinte Quatro disse aquela asneira da qual o repreendi. A origem da palavra é apenas um dos significados, existem ainda os da prestatividade ou o da numerologia que indica o número seis. Não sei. Para muitos, braular significa foder. Para outros, Bráulio nada mais é que o órgão sexual masculino denominado de pênis, mas no popular encontramos pinto, pau, rola, cacete, tora, vara, caralho e tantos outros nomes que não me é possível listar neste estudo científico. Eu prefiro dizer caralho, porque rima com malho, é mais bonito e se lembrarmos os marombeiros das academias, então temos um sentido estético também.
Outra confusão que levou os Bráulios a se dividirem em direitas e esquerdistas foi à definição da palavra foder. A palavra foder pode ter origem na latina “fodio” que significa cavar, escavar, furar, transpassar, vazar, no caso os olhos e isso é muito significativo, pois um homem sente vontade de foder uma mulher quanto ele a vê. O que foi mais ou menos o ocorrido naquela noite de quinta-feira quando conheci a Seis. Também existe o sentido figurado de tirar, aguilhoar, torturar e isso tudo lembra o sadismo, espicaçar e dilacerar e por ai vai. Lembre-se que o termo libertinagem também está próximo da palavra liberdade, dizia o número Dois, encarregado de ensinar a doutrina aos recém batizados. O que em prática não representa a realidade, um desses vocábulos é aceito na sociedade, o outro é corrompido pelo purismo do preconceito. E isso também faz da minha tentativa de teorizar algo tão importante em um fracasso.
É melhor eu exemplificar com uma história real. Ainda que a realidade só possa ser captada por um momento, sem nenhuma reprodução. Quando fui à praça, no centro da cidade; encontrei o Gusta que queria beber um pouco e se distrair dos aborrecimentos da vida. Naquele dia, resolvemos andar e acabamos num bar próximo a estação ferroviária de Santo André. Havia uma ruiva dessas de cabelo tingido lá no fundo do bar. Eu e o Gusta vimos logo de cara. Mudamos de mesa; pensava em fechar a garota ali mesmo, mas ela foi embora. No final da noite, passamos no bordel ao lado, praticamente fazendo parede ao fundo do bar. Ela estava lá em todo seu esplendor de puta, tentando praticar o poli dance. A garota se chamava Marcela e tinha apenas dezenove anos. O Gusta estava sem dinheiro; eu busquei das minhas economias e fui. A mulher era casada e tinha um filho; me disse que saia com o rapaz daquela lanchonete onde estávamos, perguntei quem era.  - O moreno de cabelo em pé. Guardei o telefone dela. Ainda em outra tarde comentava com o Patrick esse desejo animal de sair braulando tudo. Ele me falava de Miss Julie, do Rubem Fonseca. Há muitos outros exemplos, existem aqueles que nos chegam por uma voz, como acontecera comigo, quando ainda lecionava em um colégio particular da cidade de Mauá. O Charles na sala dos professores havia me dito que um moleque de no máximo vinte anos saiu para beber e no auge de sua alegria, teve a sorte de ficar com uma garota muito boa, como não queria passar por ridículo e brochar. O que é bem natural na teoria dos Bráulios, diga se de passagem. O moleque tomou um viagra inteiro e acabou fodendo a garota a noite inteira, porém não ejaculou. Passou um dia inteiro com o caralho duro; acabou tento que contar aos pais, foi ao médico, mas havia passado tempo demais, cangrenou e teve que amputar o pau. Esse nunca mais braulou ninguém. Não sei, é necessário haver informação e responsabilidade, dizia à enfermeira que contou a história para o Charles. Entre tantas vitrines que nos passam, seja loura, morena, mulata, não importa. Vou continuar braulando.

Leandro Ramires Rodrigues é formado em Letras pela FMU, especialista em Literatura pela PUC-SP, atualmente realiza cursos como aluno especial na USP, lugar onde pretende abrir o mestrado em teoria literária. “Diálogos de metaficção em O Sol Se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho”. Leciona língua portuguesa, literatura e redação para o ensino médio desde 1998, passando por outras modalidades de ensino também. Atualmente, é o conselheiro de Literatura da cidade de Santo André – gestão 2010/2012. Não se considera poeta nem escritor, palavras complicadas de se definir, mas se aventura no mundo da escrita desde 1997, quando um abençoado professor de literatura na faculdade de letras resolveu dedicar se de graça, abrindo uma oficina de criação literária. Ficou doente e desde então não mais largou a poesia e a ficção.



quinta-feira, 31 de março de 2011

Metamorfoses (em oito partes)


Fragmento
                                   
                                I – O quarto.

A manhã me arranha o rosto com som molhado
                                   Encostado na parede como rede estou em luz,
                                   Ofusca o grito do Viajante do quarto ao lado
                                   A noite se foi em siluetas de samba e abraços de mulher
                                   Do meu lado, a existência é um dia nublado,
                                   Mas o Viajante jantou o pó de sua jornada...
                                   Agora o desespero produz da manta um casulo,
                                   Libera a carne e a roupa de um inseto homem.

                                   O grotesco risca a metafísica do sonho
                                   Vejo as mutações de multidões no cimento
                                   As muitas pernas se voltando para o catre sol,
                                   Catedral imagem leva o Viajante o grito pó
                                   A casa corre tanto dentro quanto fora,
                                   A casa é um rio sem corpo e de muitas vozes
                                   Faz viagem no Viajante que não deixa a cama
                                   Reclama a chama e sai na ausência os olhos de vida


Leandro Ramires Rodrigues é formado em Letras pela FMU, especialista em Literatura pela PUC-SP, atualmente realiza cursos como aluno especial na USP, lugar onde pretende abrir o mestrado em teoria literária. “Diálogos de metaficção em O Sol Se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho”. Leciona língua portuguesa, literatura e redação para o ensino médio desde 1998, passando por outras modalidades de ensino também. Atualmente, é o conselheiro de Literatura da cidade de Santo André – gestão 2010/2012. Não se considera poeta nem escritor, palavras complicadas de se definir, mas se aventura no mundo da escrita desde 1997, quando um abençoado professor de literatura na faculdade de letras resolveu dedicar se de graça, abrindo uma oficina de criação literária. Ficou doente e desde então não mais largou a poesia e a ficção.